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	<title>Fluxo Morte Media &#187; bobo</title>
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		<title>O Louco e a Morte</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Feb 2016 21:45:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Albertino Gonçalves]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[bobo]]></category>
		<category><![CDATA[dança da morte]]></category>
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				<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_184" style="width: 757px;" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://www.lasics.uminho.pt/fluxo_morte_media/wp-content/uploads/2016/02/dance-of-death-made-in-germany-in-the-16th-century3.jpg"><img class="wp-image-184 size-full" src="http://www.lasics.uminho.pt/fluxo_morte_media/wp-content/uploads/2016/02/dance-of-death-made-in-germany-in-the-16th-century3.jpg" alt="Figura 1. Dança da Morte. Alemanha. Séc. XVI" width="757" height="1024" /></a><figcaption class="wp-caption-text">Fig 1. Dança da Morte. Alemanha. Séc. XVI.</figcaption></figure>
<p>A morte e a loucura, se não andam de braço dado, andam, frequentemente, de mãos dadas. Ao nível do imaginário, naturalmente. Na dança macabra alemã, do séc. XVI (Figura 1), o louco não dá, contra o costume, a mão à morte. As demais figuras dão a mão a dois esqueletos, um de cada lado da fila de dança. Exceptuando o homem de armas que, em vez de dar a mão direita à morte, a dá ao louco. O louco não dá nenhuma mão à morte, nem a direita, nem a esquerda. É o primeiro da fila, visivelmente, a contracorrente. Como compreender este estatuto excepcional? Poderá o louco ocupar o lugar da morte? Em determinadas circunstâncias, até parecem intermutáveis. Acresce que a posição do louco nesta dança macabra não é um caso isolado: na Dança e Canção da Morte, publicada por John Audelay, em 1569 (Figura 2), o louco é apresentado numa situação similar: no início da fila, sem dar a mão à morte.</p>
<figure id="attachment_185" style="width: 749px;" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://www.lasics.uminho.pt/fluxo_morte_media/wp-content/uploads/2016/02/the-dauce-and-song-of-death_-published-by-john-audelay-in-1569.jpg"><img class="wp-image-185 size-full" src="http://www.lasics.uminho.pt/fluxo_morte_media/wp-content/uploads/2016/02/the-dauce-and-song-of-death_-published-by-john-audelay-in-1569.jpg" alt="the-dauce-and-song-of-death_-published-by-john-audelay-in-1569" width="749" height="539" /></a><figcaption class="wp-caption-text">Fig 2- The Daunce and Song of Death’, published by John Audelay in 1569</figcaption></figure>
<p>A figura do louco é caracterizada pela liminaridade. Marginal, nem aqui, nem além, num rodopio excêntrico, sem pouso nem sentido fixos, a “nave dos loucos&#8221; não tem cais onde arrimar, nem destino a cumprir. Os territórios baralham-se, mesmo na última travessia, a da hora da morte.</p>
<p>“Voltando, pois, à felicidade dos loucos, devo dizer que eles levam uma vida muito divertida e depois, sem temer nem sentir a morte, voam direitinho para os Campos Elísios, onde as suas piedosas e fadigadas almazinhas continuam a divertir-se ainda melhor do que antes” (Erasmo, Elogio da Loucura).</p>
<p>“Sem temer nem sentir a morte”, os loucos não têm barca nem trânsito predefinidos. Como o parvo do Auto da Barca do Inferno, peça de Gil Vicente que lembra as danças da morte.</p>
<figure id="attachment_186" style="width: 1250px;" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://www.lasics.uminho.pt/fluxo_morte_media/wp-content/uploads/2016/02/hans-holbein-dance-of-death-alphabet-1523.jpg"><img class="size-full wp-image-186" src="http://www.lasics.uminho.pt/fluxo_morte_media/wp-content/uploads/2016/02/hans-holbein-dance-of-death-alphabet-1523.jpg" alt="Fig 3. Hans Holbein, Dance of Death Alphabet, 1523." width="1250" height="1267" /></a><figcaption class="wp-caption-text">Fig 3. Hans Holbein, Dance of Death Alphabet, 1523.</figcaption></figure>
<p>Esta ligação entre o louco e a morte aparece em muitas imagens. O louco e a morte envolvem-se, por vezes, numa luta grotesca (Figura 3), como na letra R do <i>Alfabeto da Dança da Morte</i>, de Hans Holbein (1523). Escusado será dizer que só um louco ousa lutar com a morte. Noutros casos, a morte adopta a roupa e os adereços típicos dos loucos (bobos). <i>Na Dança da Morte</i> de Heinrich Knoblochtzer (c.1488), a morte, trajada de louco, dá a mão a um capelão (Figura 4). Esta figura da morte travestida em louco repete-se na <i>Dança da Morte</i> de Wilhelm Werner von Zimmern (c. 1600), com a morte a conduzir um franciscano, bem como na gravura <i>A Mulher e a Morte</i> de Hans Sebald Beham (1541), em que a morte, trajada como um louco, incluindo o bastão de ar, abraça uma donzela (Figura 5).</p>
<figure id="attachment_187" style="width: 769px;" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://www.lasics.uminho.pt/fluxo_morte_media/wp-content/uploads/2016/02/danc3a7a-da-morte-heinrich-knoblochtzer-c-1488.jpg"><img class="size-full wp-image-187" src="http://www.lasics.uminho.pt/fluxo_morte_media/wp-content/uploads/2016/02/danc3a7a-da-morte-heinrich-knoblochtzer-c-1488.jpg" alt="Figura 4. Dança da Morte, Heinrich Knoblochtzer, c. 1488" width="769" height="654" /></a><figcaption class="wp-caption-text">Figura 4. Dança da Morte, Heinrich Knoblochtzer, c. 1488</figcaption></figure>
<figure id="attachment_188" style="width: 584px;" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://www.lasics.uminho.pt/fluxo_morte_media/wp-content/uploads/2016/02/hans-sebald-beham-the-lady-and-death-1541.jpg"><img class="size-full wp-image-188" src="http://www.lasics.uminho.pt/fluxo_morte_media/wp-content/uploads/2016/02/hans-sebald-beham-the-lady-and-death-1541.jpg" alt="Figura 5. Hans Sebald Beham. The Lady and Death. 1541." width="584" height="942" /></a><figcaption class="wp-caption-text">Figura 5. Hans Sebald Beham. The Lady and Death. 1541.</figcaption></figure>
<p>Será esta ligação entre a loucura e a morte exclusivo da fantasia medieval? Talvez não. Hugo von Hofmannsthal escreve, em 1893, a peça dramática <i>O Louco e a Morte</i>. Raul Brandão retoma o título numa farsa publicada em 1923: <i>O Doido e a Morte</i>. Eis a sinopse:</p>
<p>“O Governador Civil, Baltazar Moscoso, dramaturgo frustrado, tenta escrever mais uma das suas peças medíocres. O contínuo Nunes avisa-o que o Senhor Milhões o vem visitar com uma carta de recomendação do ministro. Ao ser recebido, o Senhor Milhões liga a campainha eléctrica da secretária a uma caixa que transporta consigo, comunicando que acaba de activar uma bomba, a qual rebentará daí a vinte minutos. Perante o desespero do Governador Civil que se vê abandonado por todos, inclusive a sua mulher, D. Ana, o Senhor Milhões faz a crítica demolidora das convenções sociais e a defesa de um sentido último para a Vida; o próprio Governador Civil admite ter sido a sua uma mentira. E, na iminência da explosão, chegam dois enfermeiros, que vêm buscar o Senhor Milhões, o doido. Afinal, a bomba era apenas algodão em rama e não o temido peróxido de azoto, o que leva o Governador Civil a soltar um palavrão entre a raiva e o alívio” (O Doido e a Morte, Edições Colibri).</p>
<p>À semelhança do Auto da Barca do Inferno, O Doido e a Morte, de Raul Brandão, bebe na matriz das danças macabras. A vítima é reduzida à sua condição miserável, não pela morte, mas por um louco. A arte de desmascarar tanto está associada à morte como à loucura. É, talvez, o atributo mais temível do bobo da corte.</p>
<figure id="attachment_190" style="width: 1417px;" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://www.lasics.uminho.pt/fluxo_morte_media/wp-content/uploads/2016/02/james-ensor-esqueletos-disputando-um-arenque-fumado-1891.jpg"><img class="size-full wp-image-190" src="http://www.lasics.uminho.pt/fluxo_morte_media/wp-content/uploads/2016/02/james-ensor-esqueletos-disputando-um-arenque-fumado-1891.jpg" alt="Fig 6. James Ensor. Esqueletos disputando um arenque fumado. 1891." width="1417" height="1058" /></a><figcaption class="wp-caption-text">Fig 6. James Ensor. Esqueletos disputando um arenque fumado. 1891.</figcaption></figure>
<p>A modernidade encerra, no entanto, alguma particularidade. Com tanta razão, tanto espírito positivo, tanta promessa de salvação, tanto juízo, a morte descompensou. Para além de vestir a roupa do louco, a morte, ela própria, endoideceu. Encontramo-la assim, louca, nos quadros de James Ensor (Figuras 6 e 7), Otto Dix e George Grosz. A morte anda à solta, mais maluca do que nunca: zombies, Halloween, death metal, Tim Burton… Para nossa perdição no “julgamento das almas” que se avizinha. Conduzidos por um louco ou por um esqueleto, estamos condenados a caminhar para a morte, sem nos enganar no caminho.</p>
<figure id="attachment_191" style="width: 1372px;" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://www.lasics.uminho.pt/fluxo_morte_media/wp-content/uploads/2016/02/james-ensor-esqueletos-disputando-um-cadc3a1ver-1891.jpg"><img class="size-full wp-image-191" src="http://www.lasics.uminho.pt/fluxo_morte_media/wp-content/uploads/2016/02/james-ensor-esqueletos-disputando-um-cadc3a1ver-1891.jpg" alt="Fig 7. James Ensor. Esqueletos disputando um cadáver. 1891." width="1372" height="1093" /></a><figcaption class="wp-caption-text">Fig 7. James Ensor. Esqueletos disputando um cadáver. 1891.</figcaption></figure>
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<p>Notas de rodapé:</p>
<p>Sobre o tema do louco e da morte, aconselho a leitura do artigo de Sophie Oosterwijk, “Alas, poor Yorick”. Death, the fool, the mirror and the danse macabre”, acessível no seguinte endereço:<a href="http://www.academia.edu/665091/Alas_poor_Yorick._Death_the_fool_the_mirror_and_the_danse_macabre">http://www.academia.edu/665091/Alas_poor_Yorick._Death_the_fool_the_mirror_and_the_danse_macabre</a>.</p>
<p>Existem dois livros notáveis sobre a história do tratamento da loucura no Ocidente: a <i>História da Loucura</i>, de Michel Foucault, e <i>L’Ordre Psychiatrique</i>, de Robert Castel.</p>
<p>No vídeo <i>O Desconcerto do Mundo</i>, os primeiros minutos são preenchidos com imagens de danças macabras, acompanhadas com uma canção sobre o Triunfo da Morte. Está acessível no seguinte endereço:<a href="http://tendimag.com/?s=desconcerto+do+mundo">http://tendimag.com/?s=desconcerto+do+mundo</a>.</p>
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