Opiniões#8

1) Que vantagens vê numa formação académica em Jornalismo/Comunicação para o exercício da profissão de jornalista?
Para além do óbvio aprofundamento de um conjunto de técnicas de expressão necessárias ao exercício da profissão e do manuseamento das  ferramentas tecnológicas que o sustentam,  a formação académica contribui para uma visão muito mais alargada – universalista, diria – dos frágeis e intrincados equilíbrios do mundo que somos chamados a interpretar e a reportar no dia-a-dia. A formação académica é fonte de dúvida, inquietação  e debate permanentes;  é estrada aberta à reflexão em torno do fenómeno da comunicação de massas, a partir das teses desenvolvidas ao longo do tempo por autores provenientes das mais variadas disciplinas. Reflexão que, em última análise, nos torna – se não imunes – pelo menos muito mais preparados para detetar e resistir a tentativas de pressão, desvio e manipulação de uma prática profissional alicerçada na verdade e na confiança entre o jornalista e o público para quem trabalha.

2) Que resposta deve a formação académica dar aos efeitos da associação do mercado e das novas tecnologias ao jornalismo?
São dois problemas distintos. O recurso às  novas tecnologias é, desde sempre, indissociável do jornalismo e, se bem que a sua utilização incorpora vários riscos (a aceleração do tempo com a consequente incapacidade de aprofundamento e análise dos factos a relatar é apenas um deles) parecem evidentes as vantagens retiradas pelo jornalista, pelos grupos de comunicação e, naturalmente, pelo público a que se destinam. À Academia cabe, então,  enquadrar estes recursos, chamando a atenção para os seus defeitos e  virtudes. Já a associação do mercado (julgo que te referes à concentração de meios em determinado grupo de comunicação social) coloca o jornalista perante um conjunto de questões de ordem ética e laboral que tende a enfraquecer a sua posição na cadeia de produção informativa. De forma mais evidente quando se sabe que determinados grupos constituem empresas de Media que mais não são do que montras de interesses políticos e económicos pouco compatíveis com a prática de um jornalismo livre e isento. Saber quem é quem neste jogo mediático que os jovens jornalistas saídos da Academia vão disputar parece-me, pois, essencial.

3) Defende uma formação sobretudo técnica (estudo e prática da técnica profissional) ou alicerçada numa componente mais reflexiva (estudo do jornalismo integrado no universo mais vasto da comunicação)? Porquê?
Defendo a coexistência das duas, sendo que, na vertente técnica, há muito que aponto a necessidade de substituir as tradicionais salas de aula da universidade por ambientes de redação, com uma organização interna que replique os modelos mais frequentes de editorias, secções, produção, agenda, etc. Aprender fazendo. Sentir a pressão do tempo. Sair para a rua para preparar reportagens que têm de estar no ar a uma determinada hora. Quanto à componente mais reflexiva da formação académica, deixei-a expressa na resposta ao ponto.

4) Que ligação deve existir entre a academia (cursos de jornalismo) e a profissão, durante o período letivo e na fase de estágio?
É fundamental. O estabelecimento de parcerias entre as empresas e os responsáveis pelos cursos de comunicação social deve ser incrementado. Conhecendo a lógica empresarial, julgo que têm de ser as universidades a promover essa aproximação, tendo em vista não só a realização de estágios, mas tentando também, sempre que possível, encaminhar trabalhos, ideias e sugestões dos próprios alunos. Tanto quanto possível, os responsáveis pelos cursos de jornalismo e comunicação devem promover encontros informais dos seus alunos com os principais agentes da profissão: jornalistas, empresários, responsáveis pelos departamentos comerciais das empresas, dirigentes do Sindicato dos Jornalistas, membros do Conselho Deontológico, responsáveis da ERC, etc.

Carlos Rico | jornalista SIC

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