Dar vida à morte

Pois é impreterível que este corpo que perece se revista de incorruptibilidade, e o que é mortal, se revista de imortalidade. No momento em que este corpo perecível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal, for revestido de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: “Devorada, pois, foi a morte pela vitória!” “Onde está, ó Morte, a tua vitória? Onde está, ó Morte, o teu aguilhão?” (Coríntios 15).

O Ocidente teve sempre dificuldade em lidar com a morte. A crença na ressurreição e na fonte da juventude é um sintoma. O regresso e o adiamento. Os anúncios de Marcel Burgos, da Acciona e da PlayStation 3, convocam esta fé angustiada.

O anúncio Re alude ao renascimento e à ressurreição. Um Big Bang à escala humana. Menos Frankenstein, costurado com pedaços alheios, e mais Osíris, assassinado por Seth. Ísis, a esposa, recolhe o corpo despedaçado e devolve a vida a Osíris.

Marca: Acciona. Título: Re. Agência: McCann Milan. Direcção: Marcel Burgos. Itália, 2009.

O anúncio Victor lembra o Oskar, o menino que recusa crescer, do filme O Tambor (1979), uma adaptação do livro homónimo de Gunter Grass (1959). Lembra, também, as pinturas da fonte da juventude, como a de Lucas Cranach O Velho (ver http://tendimag.com/2013/10/10/a-fonte-da-juventude/). Forçando um pouco, no Retrato de Dorian Gray (1891), de Oscar Wilde, o envelhecimento é suspenso ou, melhor, deslocado.

Marca: PlayStation 3. Título: Victor. Agência: Del Campo Nazca Saatchi & Saatchi (Buenos Aires). Direcção: Marcel Burgos. Argentina, 2011.

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