Disderi e o retrato dos mortos

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Esta fotografia dos fuzilados da Comuna de Paris, em 1871, com doze cadáveres vestidos e prostrados em caixões, é um célebre exemplo de figuração da morte. Supõe-se que Adolphe Eugéne Disderi, o inventor da carte de visite, que popularizou o retrato fotográfico e democratizou o seu acesso, foi o fixador deste instantâneo que, embora lúgubre, merece ser pensado no âmbito da nossa responsabilidade política diante das imagens da morte e das figurações da miséria que os média quotidianamente difundem. No seu livro Peuples Figurants, Peuples Figurants L’oeil de l’histoire, 4, que questiona precisamente a representação dos povos sob um ponto de vista político e estético, Georges Didi-Huberman dedica algumas páginas a esta imagem:

“Poderemos, claro, diante da célebre fotografia dos fuzilados de 1871, por exemplo , contentar-nos do macabro lugar comum – comum a tantas imagens históricas – e juntar os doze cadáveres   à vaga comunidade de mortos “vítimas da história” e à violência política. Mas podemos também refletir, diante desta imagem, sobre a comunidade particular destes comunistas assassinados. Podemos – devemos – interrogar-nos sobre o porquê e o como da sua escolha, da sua luta, da sua comum exposição à morte sob a objetiva de Adolphe-Eugène Disderi (ou um dos seus colaboradores). (…) É como se, diante da fotografia de fuzilados da Comuna, se tramasse um dom recíproco, do olhar e da imagem, esta última oferecendo ao primeiro um precioso fragmento de matéria histórica, o primeiro oferecendo à última uma preciosa legibilidade dos aspetos humanos captados pela câmara escura.” (Georges Didi-Huberman, 2012, p. 99).

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Acrescente-se que Disderi, que muito impulsionou a industrialização da fotografia através da sua invenção da carte de visite, um formato fotográfico mais pequeno e mais económico, já estava, ainda que noutro contexto, familiarizado com a captação da morte… Encontramos vários exemplares de fotografia postmortem com a marca do seu estúdio fotográfico. A fotografia postmortem era uma prática muito comum no séc. XIX, consistindo em fotografar os mortos vestidos e colocados em determinadas poses, muitas vezes acompanhados dos seus familiares. Disderi confessava a propósito desta prática fúnebre: “Da minha parte, tenho feito vários retratos depois do falecimento; mas fi-lo, confesso, não sem uma certa repugnância”. Das imagens com uma ímpar importância histórica como a dos fuzilados da Comuna de Paris a estas mais rituais e domésticas encenações da morte, é questionável qual a nossa responsabilidade política de espectadores, qual a postura que, em termos éticos, nos é exigível diante das diversas exposições da morte.

Didi-Huberman, G. (2012), Peuples exposés, peuples figurants. L’Oeil de l’histoire, 4. Paris: Les Éditions de Minuit.

Dubois, P. (1999). O ato fotográfico e outros ensaios. Campinas: Papirus.

 

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